Quando me descobri negra


Este texto foi originalmente publicado na Revista AzMina, em 09/01/2026

Imagem: @pretarabisca

Relato de uma mulher negra de pele clara sobre colorismo, transição capilar e o processo de assumir com orgulho sua identidade racial


Ainda lembro do dia em que me deparei com o título do livro de Bianca Santana, Quando me descobri negra, e senti uma familiaridade imediata. Logo pensei que seria perfeito para falar sobre o meu processo de me reconhecer como uma mulher negra. Ao longo da vida, ouvi comentários divergentes sobre a minha identidade.
Um dia, um amigo disse: “Eu não te acho negra, Thay.” Mas em outra ocasião, durante uma conversa sobre raça e racismo, uma artesã comentou: “Você sabe que você é preta, né? E mais: você tem ascendência do Egito pelo formato do seu nariz.”
Naquela época eu já me reconhecia como mulher negra, mas fiquei surpresa, não pelo conteúdo, mas por ela falar como se estivesse revelando uma grande novidade. Mas sei que, se esse comentário tivesse acontecido quatro anos antes, teria me causado estranhamento e até desconforto.

“Branca eu sei que não sou”

Viver em um país onde o colorismo impera provoca esse tipo de confusão em muitas pessoas negras de pele não retinta, como é o meu caso. Somos hierarquizados dentro da própria raça, e quem se aproxima mais da “norma” — a branquitude — costuma acessar espaços com mais facilidade. Essa sensação de estar sempre entre lugares nos faz pensar: “Não sei se sou preta, mas branca eu sei que não sou.” Afinal, os marcadores da branquitude estão sempre presentes para nos lembrar do “nosso lugar” de não brancos.
Cresci em uma família miscigenada. Minhas duas irmãs mais velhas, do primeiro casamento da minha mãe, são lidas socialmente como brancas — assim como nossa mãe. Já eu e minha terceira irmã, filhas de um homem negro retinto, somos lidas como pardas. Na infância e pré-adolescência, eu observava como as meninas brancas de cabelos lisos — ou mesmo as brancas de cabelos cacheados — eram sempre as preferidas dos meninos e dos professores.
A norma era clara - literal e simbolicamente. Para mim, aquilo parecia natural, não construído. Eu ainda não sabia ler os códigos que estruturam nossa sociedade racista.

O padrão da branquitude como referência

Em mais de uma ocasião, cheguei a resmungar para minha mãe: “Mãe, você nem para escolher um pai branco, pra eu ter o cabelo liso.” Hoje sinto um misto de vergonha e acolhimento ao lembrar disso. Frases assim nasceram do modo como a sociedade faz a gente se enxergar a partir do olhar branco como referência. E é compreensível que, diante disso, desejemos o lugar do conforto, da aceitação e — acima de tudo — do privilégio. O privilégio de entrar em um ambiente sem que a nossa cor chegue antes.
Quando cheguei à adolescência, esse desejo de me aproximar do padrão só aumentou. Eu queria ser vista como bonita, queria ser notada. Era a época do boom das progressivas nos
anos 2000 — as millennials vão entender. Comecei a alisar o cabelo por volta dos 16 anos, na esperança de me adequar ao padrão de beleza imposto. Minha justificativa era: “Vou alisar porque é mais fácil cuidar de cabelo liso.” Hoje eu rio desse argumento. Mais fácil em que mundo?
Não estou dizendo isso para julgar quem alisa; cada pessoa tem suas escolhas e seu processo. Mas, na minha experiência, alisar o cabelo nunca significou praticidade. Era passar cinco horas no salão, sentir o couro cabeludo arder com o produto, suportar o secador e a chapinha queimando a raiz. Além de lidar com o cheiro forte, que na época me obrigava a usar uma toalhinha molhada no rosto para não sufocar. Tudo isso para durar três meses e recomeçar. Com o tempo, meu cabelo foi perdendo vida, ficando opaco. E assim segui dos 16 aos 32 anos.

A transição capilar e a transformação interna

Aos 32, decidi passar pela transição capilar. Foi um processo doloroso para alguém que amava ver o cabelo sempre liso. Qualquer centímetro de raiz crescida já me incomodava profundamente. Sempre digo que minha transição foi muito mais interna do que externa. O cabelo foi consequência da minha mudança de mentalidade e de autorreconhecimento. Não era sobre cabelos, mas sobre me descobrir negra e amar cada parte da minha pele e da minha história.
Acredito que comecei, de fato, a me reconhecer como mulher negra há cerca de quatro anos, quando iniciei os estudos na faculdade de História. Lá eu tive acesso a conhecimentos que me permitiram enxergar o mundo com novas lentes: perceber o negro em seu lugar de protagonismo, resistência e beleza. Isso despertou, pouco a pouco, um sentimento profundo de pertencimento e orgulho.

Um lugar de orgulho

Tive a minha primeira aula com Allan, um professor negro, doutor, que foge de todos os estereótipos que eu tinha sobre professores universitários. Ele trazia debates, leituras e reflexões que nos convidavam a repensar a sociedade e o ensino da cultura e da história africana e afro-brasileira.
Paralelamente, ver nas ruas e na TV tantas mulheres com seus cabelos naturais, homens e mulheres negros retomando a posse de suas belezas fortaleceu ainda mais essa identificação em mim. Eu queria fazer parte disso.
Acredito que quem somos é sempre fruto de muitas pessoas e muitos lugares. Nossa construção passa por encontros, leituras, referências e afetos. Tenho orgulho do lugar onde estou agora e me sinto pronta para quem ainda serei, porque acredito que estamos sempre nos construindo e reconstruindo. Hoje, para mim, me reconhecer como mulher negra é, acima de tudo, um lugar de orgulho.

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