Quando a arte sacra é mais um lugar da ausência
Nesta semana, fui a uma missa — algo que não fazia há muito tempo. Fui porque se tratava de uma celebração especial: a formatura do meu sobrinho.
Sou espiritualista, o que significa que acredito em muitas coisas: energia, força maior, espiritualidade. Não necessariamente em um homem branco, velho, de barba branca, mais conhecido como Deus. Essa é a visão da Thay já adulta, na casa dos vinte e poucos anos.
A Thay até a adolescência cresceu em uma família católica.
Ainda assim, não tenho problemas em frequentar qualquer templo religioso. Durante boa parte da minha adolescência — a partir dos 13 anos, se me recordo — fui assídua na Igreja Católica. Ia à missa ao menos três vezes por semana, rezava o terço, participava de grupo de oração e de uma comunidade católica.
A Igreja era um lugar que me trazia paz e me ajudava a ser um ser humano melhor.
Foi nesse espaço que comecei a realizar trabalhos sociais com pessoas em situação de vulnerabilidade social. Essa experiência ajudou a formar em mim um olhar atento e compassivo para aqueles que sofrem.
Por isso, sempre digo: foram bons anos da minha vida, que ajudaram a formar meu caráter.
Com o tempo, especialmente a partir dos 16 anos, comecei a me interessar por outras coisas e fui me afastando. Quanto mais adulta fiquei, menos os dogmas da Igreja Católica fizeram sentido para mim.
Não apenas por eu ser uma mulher lésbica — o que, por si só, já me coloca em desacordo com a instituição — mas também por não conseguir mais conceber a ideia de que a fé precisava ser “cega”, entre tantas outras questões que poderia citar aqui.
Hoje, prefiro guardar as coisas boas que ficaram.
Talvez eu tenha me alongado nessa parte inicial. Não era a intenção, mas tenho percebido que os textos, muitas vezes, parecem ter vida própria.
Voltando ao ponto de partida: minha ida à missa de formatura do meu sobrinho.
Durante a celebração, observei a igreja em seus 360 graus. Todas as imagens que vi eram de santos, santas e anjos brancos.
Fiquei pensando no quanto as ausências sempre estiveram ali, silenciosas, construindo nossa visão de mundo.
O branco associado à pureza, ao bem, ao divino.
Não pretendo entrar aqui na discussão sobre os santos católicos retratados como negros, como Nossa Senhora Aparecida ou Santa Efigênia. Eles existem, sim, mas são minoria.
Aqui, faço questão de enfatizar o retratado. Porque essas imagens não são neutras: elas são o retrato de uma cultura, e não necessariamente da realidade.
Qualquer estudo historiográfico, etnológico, genético ou antropológico poderia demonstrar a impossibilidade, por exemplo, de Jesus e Maria serem brancos, de olhos azuis. Mas essa é uma discussão extensa, que exigiria um texto próprio.
O que me interessa aqui é refletir sobre essas ausências que, ainda hoje, a Igreja insiste em manter.
Historicamente, a Igreja é uma instituição racista.
Foi sob seu estandarte que os europeus promoveram um dos maiores genocídios da história, marcado por escravização, assassinatos e estupros coletivos de um continente inteiro.
Uma das teorias utilizadas para legitimar a escravização de povos negros foi a chamada “Maldição de Cam”. Baseada em uma interpretação deturpada de Gênesis 9, essa narrativa bíblica foi usada durante séculos para justificar o racismo.
Segundo essa leitura, Cam, ao ver a nudez de seu pai, Noé, teria atraído uma maldição sobre seu filho Canaã, associando — de forma falsa — seus descendentes à “cor negra” e à servidão perpétua.
Diante disso, não é estranho que a Igreja tenha tão poucos anjos e santos negros em sua iconografia.
O que causa estranhamento é que, mesmo após séculos, e mesmo não defendendo mais oficialmente essas teorias, a Igreja continue sustentando uma arte que exclui e reforça um imaginário onde bondade, pureza e divindade seguem associadas ao branco.
Talvez eu tenha me alongado — mas o faço para convidar quem lê este texto a observar os espaços por onde passa e, sobretudo, a observar as ausências.
As ausências não são impensadas.
As igrejas se renovam por fora, mas seguem preservando os mesmos silêncios por dentro.
O que se escolhe não representar também comunica.

Comentários
Postar um comentário