A alimentação saudável não é para todos — e fingir que é só aumenta a desigualdade
O mito da alimentação saudável como algo para todos
Há cerca de cinco anos, procurei um nutricionista pela primeira vez. O objetivo era claro: melhorar minha alimentação, conquistar um corpo mais definido e desenvolver maior consciência sobre o que eu consumia. Segui o plano alimentar por um período, com interrupções. Alguns hábitos permaneceram, como a substituição do pão com margarina no café da manhã por fruta com aveia, ovos e café sem açúcar.
No almoço e no jantar, mantive o arroz com feijão — não apenas por hábito, mas por gosto. Ao longo do tempo, oscilei nas demais refeições, como acontece com a maioria das pessoas.
Nos últimos anos, o debate sobre alimentação e corpo ganhou novos contornos. A popularização das chamadas “canetas emagrecedoras” e, mais recentemente, a chegada do Monjauro ao Brasil intensificaram a exposição da magreza como meta estética e símbolo de sucesso. A partir daí, uma pergunta passou a me atravessar: a alimentação saudável é, de fato, acessível a todos?
Quando a magreza vira símbolo de mérito individual
É importante delimitar o ponto de partida desta reflexão. Sou uma mulher com aproximadamente 61 kg, 1,63m de altura, que nunca enfrentou grandes conflitos com o peso. Minha relação com o corpo sempre esteve mais ligada ao desejo pontual de tonificação ou à perda de poucos quilos, não a um histórico de embates constantes com a balança.
Ainda assim, incomoda-me a transformação da magreza em troféu — apresentada como resultado exclusivo de disciplina individual — e a difusão da ideia de que comer de forma saudável é simples e economicamente viável.
Este ano, retornei ao consultório de uma nutricionista. As orientações foram semelhantes às de cinco anos atrás. A diferença estava no contexto. Enquanto fazia compras para seguir o plano alimentar — frutas, legumes, proteínas magras — tornou-se evidente o peso financeiro dessas escolhas.
Comer bem custa. E custa todo mês.
Para dimensionar essa diferença, solicitei um cálculo estimado do custo semanal de dois padrões alimentares, considerando minha residência em São Paulo: o cardápio prescrito pela nutricionista e uma alimentação mais simples, baseada em pão francês com margarina e café preto no café da manhã; arroz, feijão e carne no almoço; pão novamente à tarde; e, no jantar, arroz, feijão e uma proteína mais barata.
O resultado indicou um custo semanal entre R$175 e R$190 para o plano considerado ideal. A alternativa mais simples ficaria em torno de R$125 por semana. Em termos mensais, a diferença pode ultrapassar R$280 para apenas uma pessoa.
Em um país onde o salário mínimo é de R$1.621 e onde a maioria das famílias é composta por mais de um integrante, a matemática não é irrelevante.
Não é só sobre dinheiro. É também sobre tempo.
Jornadas extensas, deslocamentos superiores a uma hora em transporte público e escalas como a 6x1 reduzem significativamente a disponibilidade para o preparo de refeições elaboradas.
A decisão entre cozinhar arroz, feijão e carne ou optar por um alimento de preparo imediato — como um macarrão instantâneo — não se restringe à informação nutricional. Envolve exaustão, renda, acesso e contexto.
Importante destacar que esta análise ainda parte de um cenário de escolha. Não contempla a parcela da população que depende de doações ou enfrenta insegurança alimentar severa. Trata-se, aqui, da diferença entre o ideal recomendado e o possível executável.
A geografia da alimentação também é desigual
Historicamente, a magreza foi associada a status social, sobretudo entre populações brancas e de maior renda. A indústria da moda e do consumo reforçou padrões corporais restritivos, estabelecendo uma norma excludente. Hoje, além de capital simbólico, o corpo considerado saudável demanda capital financeiro.
A oferta alimentar nos grandes centros urbanos também reflete desigualdades. Nas estações de metrô de São Paulo, por exemplo, predominam redes de fast food e produtos ultraprocessados. Estabelecimentos que se apresentam como “naturais”, “orgânicos” ou “funcionais” existem, mas raramente com preços acessíveis à maioria da classe trabalhadora.
A narrativa de que basta “querer” para comer bem desconsidera fatores estruturais. Alimentação saudável envolve planejamento, tempo e dinheiro — recursos distribuídos de forma desigual na sociedade brasileira.
Entre o ideal e o possível
Talvez seja necessário deslocar o debate do campo moral — disciplina versus descuido — para o campo social. A questão não é apenas o que se escolhe comer, mas quais escolhas são efetivamente possíveis.
A magreza, quando convertida em símbolo de mérito individual, ignora as condições materiais que sustentam essa conquista. E, enquanto sobreviver for prioridade para milhões de brasileiros, saúde e estética continuarão disputando espaço em uma lista de urgências desiguais.
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