Antes de conhecer o feminismo nos livros, eu já o conhecia nas mulheres da minha família.
No mês das mulheres, gostaria de dedicar este texto a todas as mulheres cis e trans que tiveram suas vidas ceifadas apenas por serem mulheres.
Não queremos flores.
Queremos viver.
Há muito pouco tempo eu ainda tinha receio de me considerar feminista. Sentia que me faltava algo: não tinha lido autoras fundamentais como Simone de Beauvoir ou Angela Davis, por exemplo. Achava que, para me declarar feminista, eu precisava antes dominar a teoria.
Com o tempo entendi que ser feminista vai muito além disso. Hoje percebo que o feminismo sempre esteve ao meu lado. Muito antes de chegar pelos livros, ele já estava presente, bem ali, nas histórias das mulheres da minha família. Às vezes buscamos lá fora aquilo que já está ao nosso lado.
Este texto é também uma homenagem às feministas da minha vida.
“Vocês precisam ser independentes e não depender de homem.”
Essa frase foi repetida muitas vezes pela minha mãe durante a minha infância.
Para entender o peso dela, é preciso conhecer o contexto. Minha mãe é mãe solo de quatro filhas e trabalhou praticamente a vida inteira como doméstica e babá. Foi uma mulher que nunca fugiu do embate.
Durante minha infância presenciei muitas brigas entre ela e meu ex-padrasto. O que sempre me marcou foi que ela nunca aceitou a violência sem reagir. Ela sempre deixou claro que nenhum homem tinha o direito de agredi-la.
Estamos falando dos anos 1990 e do início dos anos 2000 — um período em que o debate público sobre violência doméstica ainda era muito limitado.
Naquela época era comum ouvir a frase:
“Em briga de marido e mulher não se mete a colher.”
Como se a violência contra mulheres fosse um assunto privado.
Como se a sociedade não tivesse responsabilidade alguma sobre isso.
Durante muito tempo, essa frase serviu como licença social para a violência contra mulheres.
A história da minha avó
A segunda feminista da minha vida foi minha avó materna.
Ela foi obrigada a se casar aos 13 anos com meu avô, um homem violento que espancava tanto ela quanto os quatro filhos.
Minha mãe conta uma das muitas cenas de violência que presenciou. Um dia, quando meu avô chegou do trabalho, minha avó o serviu como fazia todos os dias. Na primeira garfada, ele disse que não iria comer “aquela lavagem” e quebrou o prato de comida na cabeça dela.
Com a cabeça sangrando, minha avó correu para a rua em busca de ajuda. Ninguém a ajudou.
Ele foi atrás dela, puxou-a pelos cabelos de volta para dentro de casa e continuou a espancá-la diante dos filhos.
Anos depois, esse mesmo homem abandonou minha avó com os quatro filhos ainda pequenos para viver com outra mulher. Mais tarde, assassinou essa mulher.
Talvez, se naquela época existissem leis de proteção às mulheres como as que temos hoje, minha avó pudesse ter denunciado e ele teria sido impedido de cometer esse crime.
Ele ficou apenas dois anos preso, alegando legítima defesa. Depois de solto, ainda ficou com a guarda da filha que teve com a mulher que assassinou.
Minha avó seguiu a vida sozinha, criando os filhos. Trabalhou em diversos lugares para sustentar a família e nunca mais se relacionou com outro homem.
Na infância eu não entendia por que ela parecia tão amarga.
Hoje entendo que algumas experiências deixam marcas profundas demais.
Algumas mulheres não tiveram o direito de escolher.
Ainda assim, sobreviveram.
A ousadia da minha bisavó
A terceira feminista da minha vida foi minha bisavó.
Imaginem uma mulher nascida em 1910. Dos 7 aos 16 anos viveu em um orfanato porque sua mãe — uma mulher preta, pobre e ex-escravizada — não tinha condições de criá-la.
Minha bisavó, a vó Regina, é alguém de quem sempre lembro com muito amor e carinho.
As histórias que ouço sobre ela falam de uma mulher que ousou viver seus próprios desejos. Teve diversos relacionamentos, fugiu para viver amores e enfrentou convenções sociais em uma época em que mulheres desacompanhadas de um homem sequer podiam frequentar certos lugares.
Ela viveu sua sexualidade com liberdade.
Trabalhou lavando roupa, fazendo carvão, fazendo faxina.
Foi mãe solo de cinco filhos.
Mas também era conhecida por cuidar da comunidade. Ela costumava dizer:
“A doença que mata é o orgulho.”
Em uma época marcada por doenças como lepra e tuberculose, ela cuidava de pessoas que eram rejeitadas pela sociedade.
As mulheres que me formaram
Além da minha bisavó, da minha avó e da minha mãe, eu sou a caçula de quatro filhas.
Aprendi muito com minhas irmãs. Cada uma delas, à sua maneira, sempre foi uma fonte de inspiração. Mulheres que lutaram — e continuam lutando — por seus espaços.
Hoje percebo que o feminismo que me formou nasceu dessas experiências. Não dos livros primeiro, mas da vida.
O feminismo que aprendi não nasceu na universidade.
Nasceu nas mulheres que resistiram antes de mim.
O que é — e o que não é — o feminismo. Ser feminista não é querer ser superior aos homens nem odiar os homens
Ser feminista é lutar por igualdade.
É defender que mulheres possam decidir sobre seus próprios corpos — e não um Estado majoritariamente comandado por homens brancos, heterossexuais e cisgênero que legislam sobre nossas vidas.
Ser feminista também não é ser contra a família.
Pelo contrário: é defender todas as famílias, em suas diversas configurações.
O feminismo também não é contra a mulher que decide ficar em casa cuidando dos filhos. O que ele defende é que essa seja uma escolha — e não uma imposição social.
Inclusive decidir manter ou não pelos nas axilas — ou em qualquer outra parte do corpo. O feminismo também é sobre isso: a liberdade de cada mulher escolher.
Poderia listar aqui muitos outros equívocos frequentemente atribuídos ao feminismo. Mas talvez o mais importante seja entender algo simples:
O feminismo é, antes de tudo, a luta para que mulheres possam escolher onde, quando e como querem viver suas próprias vidas.
Convido vocês a conhecerem e divulgarem o aplicativo PenhaS um aplicativo criado pelo Instituto AzMina para o enfrentamento da violência contra as mulheres.
Sou uma, mas não estou só.
Em mim vivem minhas mães, minhas avós e todas as mulheres que resistiram antes de mim.
Texto revisado com apoio de inteligência artificial.

Comentários
Postar um comentário