Uma conversa com minha irmã sobre as eleições me fez revisitar minha infância e refletir sobre classe social, identidade, memória e escolhas políticas.
Minha irmã me disse, durante uma conversa sobre as eleições, que talvez eu já não conseguisse compreender as dificuldades de quem vive com pouco. Que, por ter melhorado de vida, talvez não percebesse o quanto os trabalhadores estão sofrendo para colocar comida na mesa.
Aquela fala me atravessou de um jeito que eu não esperava.
Não apenas porque vinha de alguém que amo profundamente, mas porque me fez pensar sobre o que significa ascender socialmente em um país tão desigual quanto o Brasil. E, principalmente, sobre a facilidade com que confundimos uma melhora nas condições de vida com uma mudança de classe social.
No final de semana passado, ao fim da apuração dos votos, a constatação de que Flávio Bolsonaro havia vencido o primeiro turno e de que o PL e seus aliados haviam conquistado uma expressiva bancada, demonstrando a força da extrema direita, me deixou profundamente triste e com uma sensação de impotência diante daquele cenário.
Mas o que mais mexeu comigo foi a conversa com minha querida irmã, por quem tenho muito apreço e com quem costumo compartilhar ideias e podcasts que considero relevantes para compreendermos o mundo em que vivemos. Um mundo cuja organização não é fruto do acaso, mas de uma construção histórica que permitiu à burguesia manter seus privilégios, preservando, sob novas formas, a lógica da senzala ao lado da casa-grande.
Tudo começou quando enviei a ela uma publicação da podcaster Nath Souza, de quem ambas gostamos muito. Na publicação, Nath dizia:
“Quando a gente fala de voto, a gente fala de alinhamento político. Quando a gente fala de um candidato que tem um vice que é acusado de estupro de vulnerável, a gente tá falando de alinhamento político.”
O texto seguia, mas o que ouvi de minha irmã, entre outras coisas, foi que eu, por estar em uma condição de vida melhor, por ter ascendido socialmente, talvez já não percebesse o quanto os pobres e assalariados, aqueles que estão “embaixo”, estão se ferrando.
Ela relatou uma ida ao sacolão e a frustração de não conseguir comprar sequer as frutas que antes conseguia levar para casa. Mencionou que o “pessoal” estaria escolhendo Lula por questões de gênero, sexualidade e pautas identitárias. Citou também o STF, Alexandre de Moraes e sua percepção de que o atual presidente defende bandidos, e não trabalhadores.
Aqui, faço apenas um resumo, com minhas próprias palavras, do que ela me disse.
A conversa me abalou bastante, mas também despertou uma série de reflexões.
Melhorar de vida não significa deixar de ser classe trabalhadora
A primeira coisa que pensei foi: eu não estou no andar de cima.
Faço parte da classe trabalhadora. Tenho apenas minha força de trabalho como moeda de troca. Se, de hoje para amanhã, eu ou minha esposa não pudermos mais trabalhar, não conseguiremos manter a vida que temos hoje.
Não somos a burguesia. Não detemos os meios de produção e não temos condições de viver indefinidamente sem vender nossa força de trabalho para garantir nossa sobrevivência.
É claro que existem diferenças importantes entre trabalhadores. Há quem tenha uma renda maior, mais estabilidade e melhores condições materiais, enquanto outros enfrentam diariamente a insegurança alimentar, o desemprego e a precariedade.
Reconheço que minha condição financeira melhorou e que hoje tenho acesso a coisas que antes pareciam distantes. Mas isso não significa que deixei de pertencer à classe trabalhadora.
Podemos ser trabalhadores que ganham mais ou menos, mas não nos enganemos: uma renda melhor não nos transforma automaticamente em burguesia.
A pobreza não é uma lembrança distante
Sou uma mulher negra, nascida e criada em uma família pobre. Nasci no início dos anos 1990, e minha mãe, trabalhadora doméstica, chegou a ter três empregos ao mesmo tempo para garantir nossa sobrevivência e o básico dentro de casa.
Na minha infância, muitas vezes, o café da manhã era café com farinha. Carne, apenas aos domingos.
Era uma vida marcada pela escassez, na qual cada pequena conquista exigia muito esforço. Minha mãe chegava a voltar a pé do trabalho para economizar o dinheiro da passagem e complementar a renda.
Embora não nos faltasse o mínimo para sobreviver, tudo era contado, planejado e conquistado com muito sacrifício.
Naquela época, não me lembro de ouvir falar em programas de transferência de renda para as famílias mais pobres, como o Bolsa Família. Lembro-me de uma farinha distribuída para crianças com problemas de peso. Minha sobrinha chegou a receber esse alimento por meio da Pastoral da Criança.
Essas lembranças fazem parte da minha história e moldam a maneira como enxergo o mundo.
Por isso, quando minha irmã me contou que havia ido ao sacolão e não conseguira comprar as frutas que antes comprava, algo naquela fala me tocou profundamente.
Porque eu sei o que significa desejar algo tão básico quanto um alimento e precisar fazer contas para decidir se é possível levá-lo para casa.
Hoje, não posso dizer que a oscilação dos preços dos alimentos me afeta da mesma maneira que afetava alguns anos atrás. Tenho uma condição financeira melhor do que aquela em que vivi durante boa parte da minha vida.
Mas justamente por ter passado tantos anos convivendo com a insegurança financeira, sei muito bem o que isso significa.
Sei o que é precisar escolher o que comprar, fazer contas para garantir o básico e viver com a preocupação constante de que o dinheiro não será suficiente.
E é porque nunca me esqueço de onde vim, e porque sei que continuo muito mais próxima daquela realidade do que do chamado “andar de cima”, que escolho o lado que, na minha visão, busca olhar para as pessoas mais vulneráveis da sociedade.
Não existe luta de classes sem raça, gênero e sexualidade
Outro ponto que me incomodou na conversa foi a ideia de que as pessoas estariam escolhendo seus candidatos por questões de gênero, sexualidade e pelas chamadas pautas identitárias, como se essas questões fossem secundárias diante das necessidades materiais da população.
Sou mulher, lésbica e negra. Portanto, sim, as questões interseccionais de classe, gênero e raça me atravessam diretamente.
Não se trata de escolher entre colocar comida na mesa e defender direitos. Para mim, essas questões estão profundamente relacionadas.
Afinal, quem são as pessoas que mais sofrem com a pobreza, com a precarização do trabalho e com a ausência de políticas públicas? Quem são as mulheres que sustentam suas famílias trabalhando em empregos mal remunerados? Quem são as pessoas que enfrentam, ao mesmo tempo, o racismo, o machismo e a desigualdade econômica?
Minha própria história é atravessada por essas questões.
Minha mãe era uma trabalhadora doméstica que precisou acumular empregos para garantir a sobrevivência de sua família. Sua trajetória revela as dificuldades enfrentadas por mulheres da classe trabalhadora, especialmente aquelas que dependem exclusivamente de sua força de trabalho para sustentar seus filhos.
É por isso que considero as pautas da esquerda mais alinhadas aos meus valores.
Qualquer partido que se alinhe a projetos que ameacem a existência, a dignidade ou os direitos de pessoas como eu estará, necessariamente, se posicionando contra mim e contra aquilo em que acredito.
Não consigo compreender a defesa da classe trabalhadora como algo separado da luta contra o racismo, o machismo e a LGBTfobia. Afinal, mulheres, pessoas negras e LGBTQIA+ também são parte da classe trabalhadora.
E não uma parte menos importante dela.
De que lado está a riqueza produzida pela classe trabalhadora?
Acredito que o acesso aos bens e às riquezas deve ser um direito de todas as pessoas, e não um privilégio reservado a um pequeno grupo.
Não acredito que a riqueza produzida coletivamente deva ficar concentrada nas mãos daqueles que costumamos chamar de elite.
Aliás, nem gosto de utilizar essa palavra, porque, como muito bem disse Emicida:
“Eu não utilizo a palavra elite, porque o significado da palavra elite é o que uma categoria tem de melhor. Se referir a pessoas que têm dinheiro somente como a elite da categoria humana faz parecer que a pirâmide da humanidade é definida pelo acúmulo. A palavra correta é burguesia.”
É a partir dessa compreensão que faço minhas escolhas políticas.
E aqui vou me referir especificamente a Lula, porque, como mencionou certa vez uma colega de trabalho, “nunca antes um político havia nos enxergado, nós, da classe pobre”.
E acrescento: não apenas nos enxergado, mas também desejado que pudéssemos ascender financeiramente.
Porque, convenhamos, ninguém quer ser pobre.
É claro que nenhum governo está acima de críticas. A insatisfação com o preço dos alimentos, com a dificuldade de acesso à saúde e com a insegurança deve ser ouvida e levada a sério. As pessoas precisam de respostas concretas para problemas que afetam suas vidas todos os dias.
Mas também acredito que precisamos olhar para a história e para os resultados das políticas públicas, em vez de nos deixarmos conduzir apenas pela memória imediata das dificuldades do presente.
É inegável que a memória é seletiva. Esquecemo-nos facilmente de fatos até mesmo recentes.
Não precisamos voltar tanto no tempo para lembrar que, no Brasil dos anos 1990 e início dos anos 2000, milhares de crianças morriam por causas relacionadas à pobreza e à ausência de condições adequadas de vida.
Dados disponíveis no Observatório da Saúde Pública mostram que, em 2000, a taxa de mortalidade de crianças menores de cinco anos era de 26 óbitos a cada mil nascidos vivos.
Estamos falando de mortes relacionadas a fatores como desnutrição, falta de acesso à saúde, ausência de saneamento básico e insuficiência de políticas públicas.
Mas podemos olhar para um passado ainda mais recente: o ano era 2021, e pessoas faziam filas para conseguir ossos para se alimentar.
São imagens que não deveriam sair da nossa memória.
Da mesma forma, considero importante observar os indicadores econômicos e comparar o comportamento da inflação dos alimentos entre diferentes governos, porque as decisões políticas têm consequências concretas sobre aquilo que chega, ou deixa de chegar, à mesa das famílias brasileiras.
Para mim, política não se resume a discursos ou à identificação com determinado candidato. Ela também se expressa nas condições materiais de vida, nas oportunidades de trabalho, na garantia de direitos e na possibilidade de que pessoas historicamente excluídas possam viver com dignidade.
Deus, Pátria e Família: de quais valores estamos falando?
A família Bolsonaro adotou como bandeira o lema “Deus, Pátria e Família”, e, por vezes, parece que quem se identifica com a esquerda é automaticamente colocado no lugar de quem se opõe a esses valores.
Mas eu gostaria de dizer como os compreendo.
Deus. Acredito na existência de um criador, de uma força maior que deu origem a tudo e que rege as leis do universo. Não acredito que algo tão complexo possa ser simplesmente fruto do acaso. Acredito, sobretudo, que Deus é amor. E, para mim, quem acredita verdadeiramente no que Deus representa não pode fazer do ódio ao próximo uma forma de manifestação da própria fé.
Pátria. Considero-me alguém que ama o Brasil e acredita que não devemos nos submeter ao imperialismo, venha ele de onde vier. Acredito que esta pátria, outrora invadida pelos portugueses, é, antes de tudo, terra indígena. Um território que hoje abriga diferentes povos, etnias, culturas e histórias, que merecem respeito, reconhecimento e acolhimento.
Família. Acredito na família, mas em todas as famílias. Não apenas naquela formada por homem, mulher e filhos. Acredito nas diversas configurações familiares que existem e naquelas que ainda possam vir a existir. Para mim, o que constitui uma família não é um modelo único de organização, mas os vínculos de amor, cuidado, afeto e responsabilidade entre as pessoas.
Não considero esses valores uma propriedade exclusiva de qualquer corrente política. Tampouco acredito que possam ser utilizados para justificar a exclusão de quem vive, ama, pensa ou acredita de maneira diferente.
Quando escolhemos um candidato, não estamos fazendo apenas uma escolha político-partidária. Estamos também escolhendo quais valores, projetos de sociedade e visões de mundo estamos dispostos a apoiar.
E, embora compreenda que a fome, a insegurança e as dificuldades financeiras pesem profundamente nas decisões de cada pessoa, não consigo separar essas questões da defesa da dignidade humana.
Entre o café com farinha e as frutas do sacolão
Dito tudo isso, a fala de minha irmã me levou a muitas reflexões.
Apesar de ter me abalado profundamente, a ponto de se tornar até assunto de terapia, fiquei feliz por ela ter compartilhado comigo o que considero um desabafo sincero.
Sua fala me fez pensar ainda mais sobre o que leva as pessoas a escolher determinado candidato, sobre aquilo que as afeta no cotidiano e, principalmente, sobre as necessidades mais básicas do ser humano: alimentação, saúde e segurança.
Talvez minha irmã nem imagine quantas reflexões aquela conversa provocou em mim.
Continuo pensando na dificuldade que ela relatou para comprar frutas, assim como continuo me lembrando do café com farinha da minha infância.
São duas imagens de momentos diferentes, mas que falam sobre uma mesma realidade: a dificuldade de acesso àquilo que deveria ser garantido a todas as pessoas.
Não ignoro a dor de quem está enfrentando dificuldades financeiras hoje. Pelo contrário, reconheço essa dor justamente porque ela também faz parte da minha história.
E talvez seja essa a principal reflexão que tenha ficado comigo depois daquela conversa: pessoas que compartilham experiências de escassez e pertencem à mesma classe social podem chegar a interpretações políticas muito diferentes sobre as causas de seus problemas e sobre os caminhos para superá-los.
Eu fiz minhas escolhas a partir da minha história, dos valores que considero fundamentais e da sociedade que desejo ajudar a construir.
Uma sociedade em que a riqueza produzida coletivamente não seja privilégio de poucos. Em que ninguém precise trabalhar em três empregos para garantir a sobrevivência dos filhos. Em que uma mãe não precise voltar a pé do trabalho para economizar o dinheiro da passagem. Em que comprar frutas não seja motivo de angústia.
E em que mulheres, pessoas negras, indígenas, LGBTQIA+ e tantos outros grupos historicamente marginalizados possam viver com liberdade, segurança e dignidade.
Porque não consigo separar a luta por comida na mesa da luta contra o racismo, o machismo e a LGBTfobia.
Afinal, essas pessoas também são a classe trabalhadora.
Ninguém deveria precisar escolher entre sobreviver e ter seus direitos respeitados. Uma sociedade verdadeiramente justa precisa garantir as duas coisas.
Texto revisado com apoio de inteligência artificial.

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